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16/01/2012 - 17:00h

Editorial: Sony e a Metamorfose

Os rumores de Kaz Hirai na presidência da Sony acabaram se mostrando precipitados, mas têm fundamento. O que aconteceria com a empresa se o Homem-PlayStation chegasse ao posto mais alto?

DivulgaçãoHirai transformou o PlayStation no titã que é hoje. E se a Sony fosse comandada por ele?

Quando os rumores de que Kaz Hirai assumiria a presidência da Sony começaram a circular, muitos dos observadores especializados se limitaram a noticiar o fato sem maiores pensamentos. Afinal, que um dia a sucessão virá à tona é fato natural do dia-a-dia de negócios. Uma eventual ascenção de Hirai, no entanto, não seria simplesmente uma página virada, mas a consagração do modelo de negócios PlayStation como espírito orientador da empresa. Ele estava lá no início da vida do console, e ele transformou-o no titã que é hoje. E se a Sony fosse comandada pelo Homem-PlayStation?

Há por demais um tom médio de ceticismo quando se fala na sucessão do poder corporativo, baseado primariamente na ideia simplista de que a empresa, no fim das contas, só quer o dinheiro de nós consumidores. Em alguns casos, isso é o puro espelho da verdade, mas é preciso também considerar as questões de fundo: depois de efetuada a venda, como a empresa mantém seu consumidor fiel? O que fazer para que pedras no caminho, como as lendárias 3RL do Xbox 360, não se tornem o abraço de afogado de uma marca? Como garantir que os usuários enxerguem em uma franquia não apenas um objeto de consumo, mas um estilo de vida a ser explorado? Todas essas questões não cabem aos acionistas, mas aos capitães de cada organização, e por isso o presidente importa: é dele o dever de traçar os caminhos na água.

Reprodução/BBCKaz Hirai sempre esteve à frente das apresentações da E3, liderando o time PlayStation

Mudança de rota

Voltemos à Sony de outrora. Esta é uma empresa do pós-Segunda Guerra que fez sua fama em cima de componentes eletrônicos puros. Somente na década de 70 é que ela se tornaria famosa por seus televisores e, principalmente, pelo lendário Walkman, que reconstruiu a indústria fonográfica em sua época como o iPod em 2004. A questão é a seguinte: até o fim do reinado de Ryoji Chubachi em 2009, a corporação sempre havia tido engenheiros e administradores como presidentes. Quando o chefe da rede de emissoras americanas CBS, Sir Howard Stringer, foi nomeado como sucessor, sobrancelhas em todo o mundo se levantaram para o fato de que um jornalista estava dirigindo, a partir dali, a companhia que um dia inventou o CD.

A mudança não foi apenas uma dança das cadeiras: em um ano dirigindo a empresa, Stringer reestruturou todas as subdivisões internas, amalgamando os setores de engenharia de TV, som, computador e videogames em uma única superconcentração de desenvolvimento de hardware chamada “Consumer Products & Devices Group”. Todos os produtos domésticos entraram no mesmo guarda-chuva. A Sony Computer Entertainment, por exemplo, deixou de existir por conta própria nesta época, tornando-se um departamento desse núcleo de inteligência. Lentamente, o pensamento multimídia do jornalista fez com que o grupo Sony deixasse de enxergar todos os diferentes meios de comunicação como ilhas. A convergência digital havia chegado com toda força.

Harold Stringer, porém, nunca foi muito chegado em jogos eletrônicos. Jogador de rugby, veterano da Guerra do Vietnã, repórter de sucesso e executivo carismático, delegou a tarefa de pensar na plataforma PlayStation ao presidente da Sony Computer Entertainment, Kazuo Hirai, que esteve com o console em cada passo da jornada. A Harold importava muito mais os setores ligados ao áudio e ao vídeo, como a Sony Pictures ou a Sony Music. Conforme Hirai concretizou seus planos de transformar o PlayStation em uma plataforma multimidiática, porém, o chefe cedeu mais e mais poder de fogo para a divisão de entretenimento eletrônico da Sony. Em março deste ano, esta tendência chegou no seu limite quando Hirai, por conta do sucesso da marca PlayStation, foi promovido a presidente de toda a divisão de produtos domésticos. Efetivamente, ele deixou de ter contato com o dia a dia da família PlayStation neste momento, e começou a pensar em tudo o que a Sony faz para o consumidor final: a linha de televisões Bravia, os computadores Vaio, todos os aparelhos de som, até mesmo os telefones da Sony Ericsson, além de tantas outras parafernalias tecnológicas que você vê nas prateleiras. No mês seguinte, Harold Stringer foi ainda mais longe: transformou a divisão de engenharia de Hirai na responsável, também, por todo o conteúdo digital distribuído pelos aparelhos ali desenhados. Chamou-a “Consumer Products & Services Group”.

Em 1 de abril de 2011, o Homem-PlayStation se tornou oficialmente o executivo com mais poder da Sony. Depois de uma escalada de postos que começou na Sony Music e o levou à liderança da SCE, ele não pensava mais em videogames, mas em tudo o que você vê, escute e toca que tem a marca da gigante japonesa. Apesar de não interferir diretamente com a produção dos filmes, músicas ou operações financeiras do conglomerado, a Hirai ficou relegada a tarefa de distribuir tudo o que a empresa produz, além de pensar em todos os aparelhos, programas e, claro, cada jogo produzido por um estúdio interno. Harold Stringer gradualmente passou a ocupar o posto de interlocutor entre Hirai e a cúpula de acionistas, com cada vez menos interferência nas decisões cotidianas da empresa.

DivulgaçãoCom Hirai, a Sony mudaria pouco em relação aos jogos, mas muito quanto aos serviços oferecidos

Uma nova atitude para uma nova plataforma

É neste cenário que a notícia de promoção do Kaz aterrissou. O que mudaria para a Sony - e para nós jogadores - seria pouco em relação aos jogos produzidos, mas muito quanto aos serviços oferecidos pelo console. Não é segredo para ninguém que Hirai sempre tentou emplacar o PlayStation como uma plataforma complexa de entretenimento: começando com o PlayStation 2, que oferecia todas as funções de um DVD Player, a franquia de videogames da Sony incorporou de forma crescente funções que nada tinham a ver com jogos, como o Skype no PSP ou, mais recentemente, o serviço de distribuição de som Music Unlimited no PS3. Com controle total também sobre a Sony Music, a Sony Pictures e a Sony Ericsson, a tendência seria a de incrementação ainda mais acelerada das funções cooperativas entre os muitos braços do grupo.

Talvez por sua formação em artes, talvez por sua longa carreira na indústria fonográfica, Hirai parece entender que o que vende hardware, independente de sua qualidade, é o conteúdo oferecido nele. Ele entende que o que importa, acima de tudo, são as mensagens que podem ser enviadas por cada aparelho. Daí a quantidade de estúdios internos da Sony. Daí a obsessão por exclusivos. Ainda esta semana, o executivo expressou seu desejo de ver jogos clássicos do PlayStation (como “Crash Bandicoot”) disponíveis para todas as plataformas portáteis, numa clara tentativa de invadir o mercado da Apple e da Google. Ele também é o homem por trás da campanha de implementação das tecnologias 3D nos jogos atuais e, antes disso, da própria criação da PlayStation Network.

E se este homem mandasse na Sony? Por impossível que seja prever com exatidão, não seria muito arriscado vislumbrar uma integração ainda mais profunda de todo tipo de conteúdo em um grande bolo de entretenimento doméstico. Gostou do jogo? Compre as músicas. Gostou do filme? Tem uma graphic novel digital bem aqui. Gostou de tudo isso? Tem um pacote com tudo incluso e um belo desconto. Mais importante, todos esse produtos serão entregues por único aparelho, cujo nome - “PlayStation” - deixou de ser ligado a nerds e adolescentes hiperativos. Em um mundo no qual todas as empresas dependem da Foxconn para montar seus aparelhos, não faz sentido tentar se destacar pela máquina, e às gigantes resta se diferenciar pelo serviço. O console entra, portanto, como o porta-bandeira da Sony e, com isso, se torna o seu principal produto. Bem-vindo à era da Sony-PlayStation.

Renato Bazan

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