Há 11 anos, a Electronic Arts, em parceria com a Rogue, lançou o jogo "American McGee’s Alice", que se inspirava no clássico (lisérgico) infantil "Alice no País das Maravilhas", do professor de matemática inglês Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido por todos pelo pseudônimo Lewis Carroll.
Nesse primeiro exemplar da série, o designer-chefe American James McGee (das franquias "Doom" e "Quake") levou Alice de volta para o "País das Maravilhas", só que o lugar já não era o mesmo: o gato de Cheshire se encontrava cadavérico e assustador, assim como quase todos os seres no local, um verdadeiro pesadelo extremamente violento. O título foi um sucesso total, vendeu cerca de 1 milhão de exemplares em 3 meses e se tornou uma verdadeira obra prima.
O tempo passou, mas a incrível história de Alice continua em voga, sendo estendida e transmutada por diretores de cinema de renome, como Tim Burton – até mesmo Marilyn Manson quis dirigir sua versão macabra do tema, mas o filme foi cancelado (imagine só). Seria este então o momento perfeito para o retorno da Alice de McGee e foi exatamente o que aconteceu. As promessas eram: mais sangue e mais loucura, ambas cumpridas.
Com "Alice: Madness Returns", a franquia (com seu bizarro universo paralelo) ganha uma continuação direta, tendo a personagem se vendo livre do manicômio em que estava abandonada. Perambulando pelos inóspitos becos de Londres, Alice encontra seu caminho de volta para o irônico e sanguinolento "País das Maravilhas".
Com a faca e o coração na mão
A jogabilidade de "Alice" é atraente. Com cenários incríveis à frente, o jogador tem a possibilidade de se deleitar durante horas sem se cansar do que vê. O conceito visual é arrojado e a mecânica do jogo (motor gráfico Unreal Engine 3) sabe como valorizá-la, como em seus cogumelos que possibilitam longos saltos (deixando rastros de partículas brilhantes e folhas pelo caminho) e a interessante e bela escapada da heroína que consiste na transformação da mesma em borboletas azuis, além das peças de dominó que servem de passarelas flutuantes – ou seja, criatividade pura.
Outras escolhas auspiciosas fazem do título uma referência em ideias novas que podem criar tendências, como o encolhimento automático da personagem para passar por pequenas portas e buracos. É realmente enriquecedor.
Tudo é muito bem estilizado, a não ser o fator morte e sangue, que estão muito explícitos. Além da faca de cozinha, outros objetos um tanto quanto inusitados servem de armas, como por exemplo, um moedor de pimenta que se transforma em uma metralhadora muito eficaz contra abelhas e goblins irritantes. A variedade de inimigos é extensa e diferenciada, contando até com chaleiras assassinas. Neste caso, é criatividade de dar medo.
Durante a campanha, você coleta itens como dentes e fragmentos de sua história. Todos esses fragmentos são acompanhados de frases que acabam lhe ensinando segredos da jogabilidade. Os personagens são todos disformes (com narizes enormes e por aí vai) e muito bem trabalhados, assim como seus diálogos e dublagens – um acabamento eficiente.
As cinematics optam por um estilo cartunesco artesanal (como feito à mão) e impressionam devido ao clima pesado e violento, tudo acompanhado por uma trilha sonora arrasadora. A abertura é, sem dúvida alguma, uma das mais memoráveis dos últimos anos.
Literatura gráfica: a combinação perfeita
"Alice: Madness Returns" apresenta uma história de avessos e de contradições mais que compreensíveis. A racionalidade é perturbada por seres extremamente bizarros e surreais, em um local belo e ironicamente assustador. Sua inocência só se contrasta com sua matança desmedida. A busca por respostas coerentes leva a protagonista apenas para o fundo de sua insanidade. Assim como um quadro clínico de loucura, os diferentes pontos de vista fazem da obra um exemplar empolgante.
Enfim, o game inspirado no famoso conto de Lewis Carrol ganha novamente, pelas mãos do mestre McGee, uma versão mais que satisfatória. Recomendado.
"Alice: Madness Returns", que está sendo desenvolvido pela da Spicy Horse, será lançado no dia 14 de junho para PC, PS3 e Xbox 360.
Da Redação
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