English negocia com seu contato (o errado) na China
O mal de “O Retorno de Johnny English” tem uma premissa básica: a personagem-título fala. À luz do problema, o caricato Rowan Atkinson, o eterno Mr. Bean. É aí que se encontra o cerne de uma série de mesmices e situações constrangedoras, quando Mr. Bean desfila seu sotaque britânico e acha que é espião (novamente), numa cópia fiel aos "agentes secretos" Inspetor Clouseau de “A Pantera Cor de Rosa” e Maxwell Smart, o Agente 86 do filme homônimo. “O Retorno de Johnny English” passa a ser um apanhado geral de frases de efeito piegas, cenas de luta cômicas e atuações risíveis. Da espiritualidade monge a uma cadeira de rodas travestida de Porsche, da agência de espionagem repetitiva aos brinquedos tecnológicos (guarda-chuva-lança míssil, aspirador de pó-rifle, batom-pistola e balas de voz), da pilotagem de um helicóptero (numa tomada em que até um dos personagens some) a takes irrealistas, tudo no filme se resume a uma longa e chata piada de gosto duvidoso, com três ou quatro timbres de alegria e muita correria.
Em “O Retorno de Johnny English”, Rowan Atkinson reassume o papel de um espião que nasceu numa série de comerciais de televisão de uma popular bandeira de cartão de crédito inglesa, nos anos 90. Nessa época o ator teve vontade de levar seu alter ego aos cinemas e somente em 2003 viu seu sonho se concretizar. Estreava “Johnny English”, que acabou faturando alto para uma comédia sem objetivo definido. Foram US$ 160 milhões ao redor do globo e a fixa ideia de que o sucesso com o público poderia se repetir. Rowan quis um novo roteiro e a Universal bancou a empreitada. Tudo sob a batuta do diretor Oliver Parker, desconhecido do grande público e comandante de produções menores como “O Retrato de Dorian Gray” e "O Marido Ideal".
Nessa sequência, Johnny English precisa resolver um impasse internacional: evitar o assassinato do primeiro-ministro da China. Para isso, ele é recrutado de um retiro espiritual nas montanhas do Tibet, onde passou anos tentando se tornar um guerreiro que age com inteligência e alma para tentar esquecer o “desastre de Moçambique”, que pôs a sua carreira abaixo na espionagem da Rainha. De lá, é convocado para esta missão-recomeço por conhecer um dos informantes da MI-7 no Oriente. Primeiro terço de recordações, segundo banal e sem claque e final previsível.
English continua obedecendo à rotina monge na sua missão final
As falas de Johnny English e sua observação agnóstica da realidade começam a dar tom entre os monges tibetanos. Lá, entre outras faces do absurdo, o espião aprende a levar um chute na “virilha” sob a condição “a mente controla o corpo”. Para isso, passa dias treinando com uma pedra, puxando ela pelo... bom, enfim. Depois cai nas graças da vontade do serviço secreto britânico e volta ao batente. Entre bugigangas e um Rolls Royce de última geração, também ganha um parceiro, como não poderia deixar de ser em filmes do gênero. O jovem é um negro de pouco mais de 20 anos, estagiário e bom em resoluções rápidas - clichê. O nome: Tucker. Parece até uma piada à parceria Jackie Chan-Chris Tucker na série "A Hora do Rush". Contraponto dedicado ao ofício, Tucker não vê muita credibilidade no que faz, nem consegue.
Aí a corrida do absurdo toma as ruas de Macau, na agitação de uma perseguição - primeiro a pé, depois com embarcações num canal de mar. E toma a tela a atriz Pik Sem Lim, que trabalha para a organização que está disposta a acabar com o primeiro-ministro em troca de dinheiro de grupos opositores. Com um aspirador de pó, percorre os cenários de perigo sempre atrás de um tiro certeiro, mas seu papel é tão insosso quanto medíocre, atrapalhando um longa já confuso e perdido entre adivinhações de expressões corporais, conversas de banheiro e uma droga de controle corporal. Também aparecem na trama uma psicóloga bond-girl e uma "patroa" durona, que entre bizarrices se reúne em sua casa em um dia de festa de família para decidir os rumos da diplomacia da Inglaterra.
English recebe os cuidados médicos de seu affair
Rowan Atkinson se perde em sua própria ambição e na desfiguração de personagens que se confundem com a sua própria essência, como Mr. Bean, recém-aposentado. O astro deu sobrevida ao velhinho mudo com personalidade de uma criança de seis anos com um humor simples, nada ofensivo, que via graça em tombos, carta de vinhos de restaurantes e animais, e que vigorava sem precisar explorar preconceitos da sociedade como etnias, idosos, deficientes físicos e cantores e seus filhos. O novo problema de “O Retorno de Johnny English”, porém, é exagerar na suposição de que o espectador está disposto a rir de tudo, como se o humor fosse o fio condutor da humanidade.
Cultivada, essa indústria do entretenimento hoje torna produtos simples em objetos de consumo irrestrito por novidades e apreço fácil. Vai de encontro com o momento depressivo que o mundo vive com crises financeiras e recessão econômica, passeatas pela paz e pela democracia, poemas pelo fim da ganância e violência (corrupção) e praças lotadas de jovens tuiteiros. Rowan ficou no passado, numa época em que sua comédia pastelão inocente e muda atingia um público sedento por tombos de cadeira. Hoje se exige mais; não tudo. Nem o limite do escroto, nem a simplicidade descabida. “O Retorno de Johnny English” faz parte de uma leva que nasceu em um contexto ultrapassado, de ideário morto – ou quase.
English conversa com a "patroa" do serviço secreto britânico
Para ficar nos mais recentes, quando “Batman, o Cavaleiro das Trevas” sugeriu uma quebra densa na sequência cronológica dos filmes, se pensou que a tendência por reviravoltas tomasse conta. Hoje, o que se vê são esgotamento do processo criativo e estagnação de roteiros quadrados e cheios de piadas de mau trato. “O Retorno de Johnny English” é a reunião desse contexto complicado e comum.
O pastelão venceu. O pastelão pobre de novidades.
Veja o trailer:
Eriksson Denk
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