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06/01/2012 - 08:04h

"Cavalo de Guerra": a brutalidade que mudou o mundo sob os olhos de um animal

DivulgaçãoJoey e Albert Narracott na primeira metade do filme

“Admitir que há guerras justas é o mesmo que admitir a existência de injustiças justas”, disse uma vez o escritor brasileiro Carlos Drummond de Andrade, ao se referir aos conflitos que mudaram a configuração do mundo por duas vezes no século passado. Em livro, o autor inglês Michael Morpurgo tentou se expressar de maneira semelhante, mas sob a égide dos animais. No seu livro “Cavalo de Guerra”, Morpurgo acompanha a história de um personagem principal para retratar todos os horrores da matança europeia na Primeira Guerra Mundial, entre homens e de homens para os cavalos. Especula-se que ao todo, quatro milhões de equinos morreram no período (1914-1918), em época que a tecnologia era a cavalaria, encarregada do transporte de armas e soldados. Daí Spielberg tirou seu novo épico, o filme homônimo ao livro inglês (que também ganhou peça na Broadway), que chega aos cinemas nesta sexta-feira rodeado de expectativas.

A história inteira acompanha a relação das pessoas com o cavalo Joey (foram 14 animais que interpretaram o protagonista) com um pano de fundo familiar. Nos primeiros trinta minutos somos apresentados à família Narracott, cujo pai veterano de guerra bêbado compra Joey num leilão só para satisfazer o ego (arremata o bichano numa disputa com o proprietário de sua fazenda). A bronca então recai sobre o filho Albert (o sem sal Jeremy Irvine), que logo se identifica com o animal e o ensina tudo o que sabe. Os dois então se encarregam de salvar a família da perda da fazenda arando uma terra infértil (Joey, porém, não é cavalo para agricultura) em cena memorável. Até a guerra chegar e levar Joey para ventos distantes, quando ele vive a ineficácia e o temor dos homens diante dos conflitos.

DivulgaçãoCapitão Nichols (direita) leva Joey para sua primeira guerra

Primeiro o protagonista é arrendado para o exército britânico e acompanha a curta missão do Capitão Nichols (Tom Hiddleston) contra os alemães. Daí vira fiel aliado a dois irmãos da infantaria do Kaiser em sua desistência da guerra e passa a viver com a doce francesinha Emilie (interpretada com emoção pela jovem Celine Buckens) numa fazenda. Todos compartilham a experiência da presença de um cavalo diferente, dócil e valente, despreparado para a guerra mas profícuo, aclamado como um “milagre”. A guerra volta a assolar a vida de Joey e ele entra de vez nas trincheiras, agora do lado alemão.

São sinceras as imagens do passeio de Joey por entre uma fusão de personagens, e também a marca do cavalo na vida dessas pessoas, mas a verdadeira narrativa se esvai com a aclamação moral do animal acima de tudo. Também é louvável toda a preparação de Spielberg diante da recriação dos cenários de guerra, das fotografias que se transformam com o decorrer das cenas e da trilha musical (que acaba sendo chata e melódica demais). O filme, porém, é enrolado e manipulador em excesso, transformando o feio em belo e se delongando demais na expectativa de arrancar mais soluços da plateia.

DivulgaçãoAmizade entre Joey e Albert é um verdadeiro "milagre"

A guerra tira tudo das pessoas, até a poesia. Spielberg, experiente na temática (“O Resgate do Soldado Ryan” e “A Lista de Schindler”), aborrece ao tratá-la com certo pendor emocional, como no instante em que a guerra é paralisada para um alemão e um britânico se juntarem para salvar Joey de arames farpados (ainda que o diálogo dessa cena inverossímil valha o ingresso). Ou quando tira o sangue das cenas de luta e não mostra o fuzilamento de dois jovens presos pela sua inocência num moinho. Ou quando caminha de maneira simplória pela brutalidade do massacre aos animais.

O desenrolar se encontra, na promessa inicial, quando Joey e Albert voltam a estar juntos após anos de guerra e o assovio incontestável da amizade. O moralismo também recorre na lição do jovem ao velho patriarca Narracott na intenção de embebedar todas as pessoas com o sentimento de recompensa pelo “dever cumprido”. E as quebras também acontecem numa Europa “americanizada” onde todos falam inglês e quando Spielberg deixa um final de guerra suspenso apenas por um sino, quando poderia usar um letreiro para decorrer a história já que é um drama baseado na própria.

DivulgaçãoFrancesinha Emilie é a revelação emocional desse épico de guerra

Fica a impressão que “Cavalo de Guerra” é um daqueles filmes para serem vistos, assim como o livro é um daqueles romances que se deve ter conhecimento, mas que a profundidade de ambos é rasa, ainda que bonita. Spielberg é um mago na criação de cenários e visuais e insere as pessoas no contexto da Europa do começo do século passado, mas falta a ele um tratamento mais apurado com os atores e com a densidade dessa história. Dá a impressão que nas mãos de Tarantino teríamos um filme à la “Bastardos Inglórios”.

“Cavalo de Guerra” concorre ao Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama e é nome forte para estar entre os dez melhores filmes do Oscar. Figurino, Montagem e Fotografia também podem render indicações. Spielberg, provavelmente, deve ter acertado mais em “As aventuras de Tintin” para 2012.

Confira o trailer do filme:


Eriksson Denk

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